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Artes Plásticas

Januário Jano: “Nenhuma sociedade é feita sem cultura nem mentes criativas.”

Andrade Lino
10/8/2017

Andrade Lino

Andrade Lino é redator e fotógrafo do Canal ONgoma. Com uma forte sensibilidade artísica, nas artes visuais e música, concilia o trabalho com o curso superior de Língua Portuguesa e Comunicação.

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Andrade Lino

Januário Jano é um artista angolano que vive entre Luanda e Londres, e assim, bebendo das duas realidades (africana e europeia), criou a sua identidade cultural e uma visão holística do mundo. Em 2005, o artista terminou a sua graduação na Universidade Metropolitana de Londres, Inglaterra, e desde então está envolvido em projectos de pesquisas que têm sido centro do seu trabalho. Tendo desenvolvido o hábito de pintar murais nas ruas, recolher jornais e revistas para criar “scrapbooks”, tem vindo a explorar diferentes tipos de impressão, usando tudo a seu alcance. É também responsável pelo TEDx Luanda, um evento realizado localmente sob licença da TED, num espaço para partilhar, contagiar, agir e fazer com que ideias tenham um forte impacto na sociedade. Numa entrevista descontraída, o artista falou-nos da sua imersão nas artes plásticas e daquilo que implica ser artista em Angola e no exterior, com foco nas oportunidades e dificuldades.

Como é que surge o interesse pelas artes plásticas?

Na verdade, não surge interesse pelas artes plásticas, surge sim interesse e a necessidade criar. É difícil dizer propriamente quando tudo começou porque quando somos crianças fazemos muitas coisas. O despertar da criação tem muito a ver com a forma como a pessoa é criada. Há pessoas que são influenciadas pelo meio onde cresceram, mas outras, com a necessidade de quererem expressar-se e de se sentirem livres, desperta-se-lhes a criação. Já no meu caso é diferente. Acredito que isso é algo que faço desde que me conheço, mas não sei bem se na altura já era arte, se era design, só sei que brincava, montava coisas, fazia desenhos, explorava coisas que só mais tarde fui descobrindo que existe um rótulo associado a elas. Por exemplo, fazia coisas que só na idade adulta fiquei a saber que são métodos de impressão, que está associada à área criativa e à necessidade de se expressar com um elemento visual que no final é tangível. Além disso, muito cedo comecei a pintar murais, mas não sabia que era “Street Art”, só sei que desenhava nas paredes.

"Temos consciência que é mau destruir propriedade alheia, mas do mesmo modo é mau não ter espaço ou ser-lhe roubado o direito de se expressar."

E nunca teve problemas por pintar murais?

Já sim, fui corrido muitas vezes. Isso é complicado. Temos consciência que é mau destruir propriedade alheia, mas do mesmo modo é mau não ter espaço ou ser-lhe roubado o direito de se expressar. Tudo parte de uma negociação, porque não podemos só olhar para o ego ou para a vontade  de ver aí a obra exposta, mas com isso ferir a sensibilidade do proprietário, aí sim há vandalismo.

A imersão pelas artes foi crescendo de forma natural ou sentiu-se depois obrigado a passar por uma academia?

Foi natural até estar veiculado a uma instituição académica, ter conhecimento dos rótulos e dar nome às coisas. Mas, a minha formação não é em artes. Eu sou formado em design, não o design específico, de produto, automóvel ou industrial, mas o design geral, onde por dentro descobrimos a arquitectura, moda, filme, fotografia, enfim, e depois o próprio indivíduo é quem decide puxar mais por aquilo que domina.

Nesse caso, o que mais lhe dá prazer fazer?

Inicialmente, eu gosto das duas coisas: do design e da arte. Quanto ao design, gosto da parte do produto e de comunicar marcas. Sou bom em design gráfico, mesmo, e embora actualmente já não esteja tão engajado como dantes, ainda faço e essa valência facilita-me nalguns trabalhos como artista. Apesar de estar a fazer arte, ainda estou envolvido em trabalhos de design. Por exemplo, o prémio que ganhei no ano passado está ligado à área de design, que é o Arte Laguna, na categoria de Business For Art. Estou entre os dois mundos.

Quando é que começa a fazer scrapbooks?

Desde muito cedo, isso é algo que achava engraçado fazer: colher dos jornais os títulos dos textos e imagens e tentar recriá-los num outro espaço, fosse livro ou caderno. É que depois de  se fazerem as colagens, já  se tem outra história. Isto é fantástico.

O que o levou para fora do país?

Penso que foi a necessidade de descobrir coisas novas. Não gosto de estar limitado. O que me levou para fora foi o estudo, em primeiro lugar. Eu estudei no Instituto Médio das Pescas, na província do Namibe, mas depois de regressar para Luanda, senti-me bastante limitado, principalmente no que tange ao acesso à universidade. Não haviam muitas opções e já tinha ideia de fazer muitas coisas que aqui não via. As minhas primeiras opções eram arquitectura ou fotografia e mal sabia da existência do design. Além disso, quando tens contacto com essas coisas lá fora, é como abrirem para ti as portas das maravilhas, num espaço em que tens tudo nas mãos para te tornares o que bem quiseres.

E como é que foram os primeiros meses no exterior?

Quando saí de Angola, fiquei primeiro sete meses em Portugal, uma experiência que não gostei de ter porque chovia todos os dias na altura em que havia lá chegado. Quanto à Inglaterra, acredito ter chegado num tempo bom, isso há sensivelmente 16 anos, época em que não se falava de terroristas nem enchente de imigrantes, mas continua a ter esse encanto, porque, como residente, já não existe a necessidade de visitar certos sítios como se fosse um turista.  É como um livro. Lê-lo é bom, mas viver a narrativa fisicamente é “brutal”.

Que avaliação faz da sua vida artística entre Angola e Inglaterra?

É tudo uma questão de base. Nós, cá, não temos bases sérias para sustentar os artistas ou qualquer área independente de uma empresa estatal. Ou seja,  não existem bases para as áreas que se encontram contempladas no Orçamento Geral do Estado, o que torna difícil haver uma dinâmica para a realização de certas coisas. A diferença é evidente. Quando se está num país ou cidade onde existe esse suporte, é fantástico, porque tudo que tens que fazer é fazer as coisas que o apoio virá.

Quando é que expõe pela primeira vez?

A minha primeira exposição colectiva foi em Londres, após a graduação, e a primeira individual foi no Porto, Portugal, na galeria Geraldes, mas a exposição que mais impacto teve até agora foi a Fragmentação 1.0, aqui em Luanda. Até agora só recebi um prémio, o Arte Laguna Prize 2016, internacional e de grande porte, que este marcou as linhas de afirmação para mim como artista profissional. Sentir-me realizado é prematuro, pois ainda estou somente a começar, mas já fiz e faço muito, e talvez daqui a alguns bons anos essa questão já tenha resposta.

A nível de design, quais acha que são os grandes trabalhos que já fez?

Neste momento é o projecto que estou a realizar com uma empresa italiana, parte do prémio que recebi em 2016. Por outra, tive o prazer de desenhar e produzir o material para Expo Angola em Milão e outros tantos projectos que já realizei no passado.

O que representou para si ter participado da exposição “Eu em Angola”, decorrida no ano passado, que juntou artistas nacionais e estrangeiros?

Foi só mais um projecto, igual aos outros, deu-me abertura para expressar as minhas experiências e vivências dentro desse espaço, África e Europa. Foi uma experiência bastante interessante, claro, resultado de muitas conversações, dedicação e colaboração entre Angola e a União Europeia, mas iniciativas como essa devem acontecer mais vezes, para que se possa investir no lado cultural e artístico e então criar e aprimorar esse tipo de diálogo entre países e continentes diferentes.

Sempre teve uma boa relação com outros artistas, nacionais e estrangeiros?

Eu relaciono-me com pessoas, não me fecho nos grupos, e dessas pessoas estão as que actuam em diferentes áreas. Então, não sei nem como descrever uma relação com um artista, mas desde que o projecto fale a minha língua, sou aberto para colaborações.

... o sucesso não depende da política nem de nenhuma infra-estrutura, mas da vontade pessoal...

Na sua visão, o que acha que falta para sustentar as artes plásticas em Angola?

Angola é um país muito jovem ainda. Nós precisamos é de olhar para o país daqui a  uns cem anos para começarmos a falar que “falta isso ou aquilo”, porque não passa só de infra-estruturas, mas de uma visão global sobre o que queremos para Angola e considere-se isso um assunto político. Por um lado, não há nada que nos mostre um caminho a seguir, mas, por outro, fazer, seja o que for, em qualquer parte do mundo, tem tudo a ver com a dedicação do próprio indivíduo, porque é este quem deve saber o que quer para si mesmo, uma vez que o sucesso não depende da política nem de nenhuma infra-estrutura, mas da vontade pessoal, que é a prática artística aqui em Angola. É complicado, mas não é tão difícil. Nós é que temos que tomar uma posição no mercado e fazer escolhas.

.... “a arte não se come. Quem colecciona para fazer negócio deve ser um louco. Ele colecciona porque ama, tem paixão no que faz e dinheiro extra para gastar com as artes”.

Considera possível viver-se das artes plásticas?

A arte não se come, não se põe à mesa e se divide com a família, mas algumas pessoas que têm dinheiro dizem fazer negócio de arte. Pelo menos aqui em Angola, isso para mim é sonhar, porque não me vejo nesse período a pôr uma obra no mercado e esperar que daqui a algum  tempo fique a rolar por milhões. Meu foco é apenas fazer o que gosto de fazer e que as pessoas vejam isso, que sintam o que eu sinto, que entendam o que eu estou a dizer, e se gostarem do trabalho, adoptam-no, mas nunca foi meu foco vender. Eu tenho coleccionadores aqui e no exterior, e à medida que o tempo passa, vão surgindo novos coleccionadores, alguns seguidores, pessoas que gostam da forma como me posiciono e gostam do meu trabalho, esteticamente,  outras que, além disso, querem obter as obras para os seus acervos. Parafraseando um coleccionador americano, “a arte não se come. Quem colecciona para fazer negócio deve ser um louco. Ele colecciona porque ama, tem paixão no que faz e dinheiro extra para gastar com as artes”.

Qual é a sua opinião sobre os espaços de exposição no país?

São os espaços que nós temos. Se olharmos, por exemplo, para aquilo que seria a exposição “Ambundulando”, não há terreno que chegue para fazer o que eu quero. Entretanto, nós tentamos fazer o máximo que podemos nesses espaços porque nós é que temos que tomar uma atitude. E como disse outrora, há aqui a questão de como o país está a ser gerido. Já algumas vezes estive no ISARTES a dar aconselhamentos sobre o que pode ser feito para conseguirmos lidar com a falta de condições, porque os alunos que estão a ser formados nessas estruturas estão limitados de mais.

Do ponto de vista de comercialização das artes, que comparação faz entre os mercados angolano e inglês?

Não tenho como avaliar isso porque não estou envolvido em vendas. Mas se tivermos que voltar para a questão do suporte a quem pratica arte, isto está mais do que visto. Houve decerto um período em que corria muito dinheiro e havia muita compra, mas hoje anda tudo desacelerado. Honestamente, olhando para o contexto africano, nós ainda não temos um mercado definido. Em termos de fazedores de arte, nós estamos a caminhar no mesmo patamar, mas atendendo à evolução do mercado europeu, com longos anos de cultura de arte, o nosso mercado praticamente ainda não existe. Nós temos que criar, e para isso precisamos de muitos elementos, que vão de academias a outros espaços com um pendor governamental, que quase todas as cidades lá fora têm.   Por exemplo, tanto para a arte antiga como para a contemporânea, nós ainda não temos uma galeria nacional, mas é de louvar que já estejamos a caminhar para lá, pois temos jovens com dinâmica, a fazerem coisas muito interessantes e que já são notáveis no exterior.

“As instituições financeiras, normalmente, estão interessadas a fazer negócio. Existem instituições com maior intenção de apostar no conhecimento  e crescimento das pessoas, e essas são organizações filantrópicas que vivem porque alguém tem condições financeiras e investem em projectos do género.”

Até que ponto as instituições financeiras têm interesse em investir num projecto de arte?

As instituições financeiras, normalmente, estão interessadas a fazer negócio. Existem instituições com maior intenção de apostar no conhecimento  e crescimento das pessoas, e essas são organizações filantrópicas que vivem porque alguém tem condições financeiras e investem em projectos do género. Já com as instituições financeiras é diferente. Se um artista quiser um patrocínio, são-lhe impostas várias condições. Porque a pergunta que se faz é sempre: “o quê que ganhamos com isso?” e tens que dar resposta à essa questão. Contudo, os patrocínios são negociações. O que quero dizer é que, existem associações que existem e fazem coisas mas deveriam fazer melhor, outras que se fecham em si, mas que, se colaborassem com as outras, deveriam estar a fazer coisas melhores do que têm feito. Ainda precisamos de olhar mais para o aspecto “Angola, Arte e Artista”, só depois desconstruir isso tudo e começar a caminhar.

... eu não acredito que estejamos a passar por uma crise financeira como tal, mas que vivemos sim uma crise de identidade, e só quando resolvermos isso, trabalhando para dentro de nós mesmos e aceitando quem somos é que começamos a ter uma abordagem mais nossa.

De que forma é que acha que as artes plásticas em si podem contribuir para o desenvolvimento, não só cultural, mas socioeconómico de um país?

Nenhuma sociedade é feita sem cultura nem mentes criativas. A arte e a cultura fazem parte da constituição de qualquer país e é um pilar para o desenvolvimento, um elemento sem o qual nenhuma coisa funciona. Há  quem trabalha com artistas, emprega pessoas, tem assistentes, enfim, e há quem simplesmente precisa de estar a fazer obras e assim obtém uma projecção internacional e talvez com o nome que consegue fazer atraia pessoas para virem descobrir Angola e isso pode-se reverter na nossa economia. Mas agora, tocando nesse assunto, eu não acredito que estejamos a passar por uma crise financeira como tal, mas que vivemos sim uma crise de identidade, e só quando resolvermos isso, trabalhando para dentro de nós mesmos e aceitando quem somos é que começaremos a ter uma abordagem mais nossa. Eu olho para mim como um contador de histórias, um fazedor de exercícios de histórias que nunca foram contadas, e entretanto, com o meu trabalho, eu procuro trazê-las a um fórum de pessoas que as desconhece totalmente, e é bom ver as pessoas a descobrirem coisas novas quando se deparam com as minhas obras.

É chocante ouvir uma pessoa na casa dos dos 30 anos dizer isso. Portanto, quem viveu na Inglaterra e conhece a dinâmica de países como aquele, de jeito nenhum um jovem tem que ter esse tipo de pensamento, tampouco pensar em conseguir um emprego das 9h00 às 5 da tarde, ganhar salário e mais nada.

Fale-nos um pouco de como surgiu a ideia do TEDx Luanda.

O TEDx começa no meu regresso a Luanda, depois de catorze anos sem contacto com o país. Na senda de me reencontrar com as raízes e voltar a manter contacto com as pessoas de cá, época em que me sentia estrangeiro em casa própria, comecei a notar que havia aqui um problema com a juventude e fazia-me confusão ouvir jovens a dizer: “tenho que ter um emprego que me garanta reforma”. É chocante ouvir uma pessoa na casa dos dos 30 anos dizer isso. Portanto, quem viveu na Inglaterra e conhece a dinâmica de países como aquele, de jeito nenhum um jovem tem que ter esse tipo de pensamento, tampouco pensar em conseguir um emprego das 9h00 às 5 da tarde, ganhar salário e mais nada. Há que fazer mil coisas. Então, vi ali a oportunidade de se fazer algo diferente, e notei também que não haviam referências ou modelos nos quais a juventude se pudesse apegar. Surgiu então a necessidade de fazer um projecto que poderia de certa forma ajudar os jovens a pensar de forma diferente. Descobri o TED na universidade. Lembrei-me que haviam plataformas aconselhadas pelos professores universitários em tempos de projectos. Existem outras, mas o TED foi a que mais fez sentido para mim.

De 2012 para cá, qual acha que é o impacto que esses 5 anos de TEDx Luanda têm causado na vida dos jovens?

Quando isso começou não havia muitas palestras como acontece agora. Claro que coisas boas devem ser reproduzidas, mas não excessivamente. Há umas que são necessárias, servem para partilha de ideias e trocas de experiências, mas há aquelas que são meras máquinas para ganhar dinheiro ou protagonismo na sociedade, o que acho totalmente errado. O TEDx não nasceu para tirar vantagem de ninguém, mas com a ideia de que, se eu ajudar alguém hoje, talvez essa pessoa vá ter potencial suficiente para abrir certas portas das quais eu me possa beneficiar futuramente. E se não for eu, serão os meus filhos ou netos. Desde que isso não caia num lado com o qual não coaduno, acredito que o TEDx é perfeito para mim e para as pessoas.

E como olhou para aquelas pessoas que se comoveram com a iniciativa e vieram ter consigo para terem uma direcção nos seus projectos?

Primeiro é que, quando se está exposto ou se estabelece contacto direito com as pessoas, elas aparecem sempre. É inevitável e também positivo saber que há pessoas que sabem o querem. Logo, sinto-me na obrigação de prestar qualquer coisa a elas e é na verdade por isso que faço com o TEDx: não de forma comercial, mas usar o meu precioso tempo para ajudar pessoas.

Um artista  apaixonado por velocidade, plantas e cozinha

Nascido em Luanda, Cazenga, a 24 de Março de 1979, Januário José afirma que gosta de cozinhar, de tratar de plantas e de carros rápidos. Afirma ter a mania de mexer em coisas, e das várias coisas que gosta de fazer, viajar é uma que mais se destaca. Dentre os músicos angolanos que gosta de ouvir, Ndaka Yo Wiñi e Jack Nkanga são suas preferências. Disse ter assistido recentemente ao filme “I´m not your nigga” e estar a ler, actualmente, vários livros em simultâneo, nacionais e estrangeiros, dentre eles “O Mestre Tamoda”, de Uanhenga Xitu, “Família Real”, de Pepetela. “Estou também a ler algumas matérias em PDF porque há coisas que não encontro em livros. Artistas de referência tenho vários, mas infelizmente poucos da nossa praça porque acabo por beber mais de fora.  A título de exemplo, gosto do Sérgio Piçarra, acho engraçado o trabalho que faz, independentemente da forma como é conotado. Aqui, não frequento nenhum bar ou restaurante, porque a minha cozinha é o meu restaurante favorito. É difícil citar pratos porque faço sempre mistura de coisas.  Por exemplo, há uma salada que faço sempre pela manhã, que é uma mistura de mandioca, abacate, ovo, farinha, banana e mel”.