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Alfredo Abambres, o empreendedor que sonha levar “ar fresco” aos lares angolanos

Sebastião Vemba
17/7/2017

Sebastião Vemba

Foto por:
Lourenço Caculo e Sebastião Vemba

Alfredo Abambre é um empreendedor  dinâmico, mas considera-se um aprendiz de “homem de negócios”,  pois apenas há menos de uma década é que gere um negócio próprio e descobriu, entretanto, que uma “coisa é estudar  e saber sobre negócios”, e outra, “completamente distinta, é dirigir negócios”. O espírito imparável herdou do país, que foi serralheiro e mecânico a vida inteira, mas a disciplina quotidiana  e o rigor na negociação e gestão aprendeu durante a vida militar, aonde foi parar aos 14 anos.   

Hoje, com uma licenciatura em Gestão e Administração de Negócios, feita em Londres, onde foi parar por motivos de saúde de uma das filhas, depois de ter tido uma passagem por Portugal, Alfredo Abambres está à frente da KTN Kenati, Lda, empresa que fundou com amigos e antigos companheiros militares, para prestar serviços na área tecnológica. “A primeira ideia de negócios era prestar serviços a empresas de telecomunicações em cablagem, na condição de sub-empreteiro. As empresas não precisam de elas mesmas empregarem gente para esse serviço, mas podem subcontratar construtoras, como é o nosso caso”, informa, avançando, entretanto, que este negócio está relativamente parado, daí que, mais recentemente,  investiu no negócio de ar-condicionado, com o qual tem a ambição de levar “ar fresco” a todos os lares angolanos.

Alfredo Abambres explica que o serviço “KeniFresh” vem dar resposta à falta de assistência técnica que se regista no mercado, uma vez que, na sua opinião, em Angola deitam-se fora os electrodoméstiocos ainda novos. “Os aparelhos deviam ser mais bem-tratados. Vejo aparelhos de ar-condicionados muito maltratados, porque as pessoas não têm o hábito de lhes fazer manutenção”, observou o gestor que acabou investindo igualmente na venda de acessórios, mas apenas para os clientes que solicitam o serviços de montagem e manutenção, embora já tenha em carteira, até final do ano, a abertura da primeira de quatro lojas que terão em Luanda.

Ar-Condicionado a crédito

Com o serviço “KeniFresh”, KNT Kenati está focada na prestação de serviço a empresas e clientes individuais, com quem procura ter contratos fixos. “Encontramos um grande obstáculo, que é o facto de haver pessoas que não pagam fisco, levam uma botija de gás na mão e até cobram mais caro do que nós, mas conseguimos contornar isso, porque a Kenati oferece garantia e qualidade de serviços”, refere Alfredo Abambres, lembrando que, entretanto, o serviço de frio e electricidade começou a ser prestado no período em que surgiu a crise cambial e económica no país, o que elevou os desafios da empresa em termos comerciais.

“Atendendo que prestávamos serviços a condomínios maioritariamente habitados por estrangeiros, que estavam a deixar o país devido à crise, nós acabámos por ficar com o stock parado, porque não havia clientes”, esclarece, acrescentando que, em função disso, decidiram criar três modalidades de venda, nomeadamente a “pronto pagamento”, “a prazo” e “venda a crédito”, sendo que, por não haver cooperação com nenhum banco comercial, a condição para aderir à última modalidade de compra é ser maior de idade, apresentar uma declaração  de trabalho e preencher um compromisso de liquidação ou transferência automática das prestações a cada final de mês.

Alfredo Abambres explica que o serviço “KeniFresh” vem dar resposta à falta de assistência técnica que se regista no mercado, uma vez que, na sua opinião, em Angola deitam-se fora os electrodoméstiocos ainda novos.

“Passámos a vender pacotes em vez de simples aparelhos de ar-condicionado, pois incluímos no preço a prospecção, o transporte, acessórios e a montagem do aparelho. No início, os clientes achavam o serviço caro,  mas acabámos por tornar-nos  muito mais competitivos, porque eles não têm que ir à procura de um técnico que não lhes oferece garantia de reparação, e no caso de haver falha de fabrico, é também com a mesma empresa que têm que tratar”, argumenta Alfredo Abambres.

Entretanto, além dos aparelhos de ar-condicionado, a empresa lançou uma campanha de reparação de electrodomésticos de frio, denominada “Fresh Repair”, que, só no mês passado, permitiu solucionar problemas de média dúzia de restaurantes que tinham os frigoríficos avariados, revela o director-geral da KNT Kenati.

Um profissional autodidacta

Apesar de se formar em Gestão e Administração de Negócios, a grande paixão de Alfredo Abambres é a tecnologia, particularmente a informática, sendo que, desde muito cedo, lê regularmente as revistas do sector. Aliás, ainda enquanto militar, chegou a leccionar informática em vários centros de formação no no Instituto Médio Industrial.

Porém, Alfredo Abambres perdeu alguma prática quando viajou a Portugal, onde chegou a trabalhar numa linha de produção da Pioneer, e mais tarde, já em Londres, foi mordomo em estádios de futebol. Questionado sobre como avalia a educação laboral dos seus colaboradores, respondeu que esses são excelentes.

“Não vejo com bons olhos os que dizem que os jovens são mal-formados. Eu acho que merecem oportunidade  e  devem ser ensinados a ter um desempenho de zelo. É verdade que temos uma franja da juventude muito imediatista, mas ela deve ser ensinada  a saber esperar e ir buscar o conhecimento. Antigamente, não tínhamos nem televisão, nem rádio, mas conseguíamos ter uma cultura geral aceitável. Os livros, jornais e revistas circulavam de mãos a mãos, e todos lutávamos para, no caso de ir a tropa, ter a oitava classe, mas era preciso também ter domínio da língua e das ciências exactas para concorrer ao grau de oficial. Esse é o meu tempo. Não havia internet, não tínhamos jornais... mas tínhamos criatividade”, afirmou, tendo acrescentado que, considerando as dificuldades diárias e as condições sociais do país, o conhecimento que os jovens apresentam é aceitável, mas devem ser acolhidos e incentivados a buscar por mais.

Outro projecto que Alfredo Abambres tem em carteira é a construção a Academia Tecnológica da KNT Kenati no Zango, no entanto, ainda para este ano, está agendada o projecto “Touch and Type”, uma iniciativa que se enquadra nos projectos de responsabilidade social da empresa e que tem o objectivo de incentivar o uso das tecnologias  digitais nas comunidades.

“Não se constrói um país em treze anos”, disse, e informou que, pelo menos uma vez por ano, a KNT Kentai contacta as direcções dos institutos médios técnicos para  recrutar novos quadros para a empresa. “Entrevisto os candidatos para perceber quais são as suas aspirações, e mesmo que não tenha vaga disponível para todos, aproveito incluir informação numa base de dados que temos dispnível”.

No entanto, a empresa não escolhe apenas os capacitados, mas também capacita os escolhidos. “Nós formamos os nossos próprios técnicos, uma vez que recebemos alguns candidatos com baixo nível técnico e de escolaridade, mas ao fim de dois anos eles acabam crescendo muito, porque aprendem desde informática à cultura geral, com programas de formação que temos disponíveis na Kenati”.

E porque as empresas são feitas de sonhos  - e muito trabalho para os tornar realidade -, Alfredo Abambres não quer apenas que a KNT Kenati abra lojas pelo país para revender aparelhos de ar-condicionado, mas que tenha, dentro de dez anos, uma fábrica de aparelhos de ar-condicionados, “porque o país é grande, tem mais de seis meses de calor e uma única fábrica de ar-condicionado não dá. Queremos ter uma Angola mais fresca, e levar um aparelho de ar-condicionado aos lares angolanos, pois há famílias que têm em casa um ventilador, mas matriculam o filho num colégio que tem ar climatizado, o que acaba por causar, em muitos casos, problemas respiratórios às crianças, devido ao conflito de climas”, lamenta.

“Não vejo com bons olhos os que dizem que os jovens são mal-formados. Eu acho que merecem oportunidade  e  devem ser ensinados a ter um desempenho de zelo. É verdade que temos uma franja da juventude muito imediatista, mas ela deve ser ensinada  a saber esperar e ir buscar o conhecimento.

Outro projecto que Alfredo Abambres tem em carteira é a construção a Academia Tecnológica da KNT Kenati no Zango, no entanto, ainda para este ano, está agendada o projecto “Touch and Type”, uma iniciativa que se enquadra nos projectos de responsabilidade social da empresa e que tem o objectivo de incentivar o uso das tecnologias  digitais nas comunidades. “O projecto arrancaria agora em Julho, mas preferimos adiar porque não tivemos feedback das administrações municipais, que nos devem dar autorização para visitarmos as comunidades. Vamos retormar depois das eleições”, informou, e esclareceu que o “Touch and Type” também tem o objectivo de descobrir o angolano mais rápido a teclar. “Será possível cronometrar o tempo que cada indivíduo leva a teclar uma frase”, disse.

O nome Kenati surge da tentativa dos sócios em encontrar uma palavra que, foneticamente, se aproximasse da expressão “I Can Do It”, pois esta não lhes parecia que fosse atractiva ao nível comercial e de marketing.